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O porta-retrato

  • Foto do escritor: Silvia Gonçalves. Facilitadora de Biblioterapia
    Silvia Gonçalves. Facilitadora de Biblioterapia
  • há 8 horas
  • 2 min de leitura


O homem, diante do porta-retrato, tateando a câmera fotográfica que permitiu a existência do objeto que congelou aquele instante, viu-se menino novamente e viajou para o passado.


Não importava onde tinha chegado, tampouco a posição social que conquistara. Ali, era ele novamente um menino e, ao retornar ao lugar mais alentador de sua história, deixou-se embalar no colo da lembrança.


Mergulhou em tempos remotos e reviveu os dias de sol, os momentos inesquecíveis acompanhados de chá, histórias e carinho.


Lembrou-se também dos instantes em que a avó precisava trabalhar e ele aguardava, ouvindo o téc-téc da máquina de escrever. Esperava. Era um treino de paciência, um sacrifício que valia a pena. Sentado na poltrona de leitura, escutando o tic-tac do relógio — cúmplice da espera, parceiro da ansiedade pelo instante em que a avó puxava o

papel da máquina e dizia:




— Ouça, meu leitor predileto, abra o seu coração para ouvir!


A recompensa era ser sempre o primeiro a saborear a fantasia, o mistério ou a aventura. O garoto sentia grande orgulho; sabia que aquilo que outras crianças leriam tinha nele inspiração.


Depois do mergulho, da nostalgia, do palpitar suave do coração, da lembrança de ser o primeiro em tudo e de servir de inspiração, chegou o momento difícil: aquele que a emoção cobra, mas a razão adia, posterga e tenta aniquilar. O momento que só os fortes conseguem trazer à realidade, porque aprendem a equilibrar emoção e razão — irmãs que caminham juntas, embora muitas vezes deem as costas uma à outra.


Era o momento de pedir perdão.

Perdão pela ausência. Perdão por tanto tempo sem buscar o colo. Perdão por crescer  e abandonar a criança interior. Por deixar de ser fonte de inspiração. Perdão pela distância imposta aos corações.


O menino, olhando o porta-retrato, recalculando a grandeza da existência da avó e relembrando a potência de suas palavras, sentia que o perdão era possível, era viável. Precisavam estar em paz um com o outro para que a herança fosse recebida: a casa, os móveis, a máquina de escrever, a câmera fotográfica, os livros e, sobretudo, o mais importante — o dom de ligar palavras, transcrever sonhos e construir histórias.


Silvia Gonçalves



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